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Benilton Cruz em: “Três poemas apareceram na minha frente”

Ver-O-Poema 12/02/2018
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PRÓLOGO

Três poemas apareceram na minha frente. Eram três odes que se assemelhavam às de Safo. Em todos os versos, perfeitamente escritos em grego antigo, só pude lembrar dessa palavra “AEDEUS”. Esta palavra se repetia nos três poemas, quase na mesma linha. Tudo isso aconteceu em um sonho.
Ao acordar, pensei em todas as possibilidades que levaram um papa a queimar quase toda a obra de Safo. Pensei na semelhança entre as palavras “théo” e “dios” que vão dar em Deus. Pensei também na palavra “aedo”, o antigo poeta-cantor, que vai inspirar Homero para compor a Ilíada e a Odisséia. Pensei na semelhança entre “aedo” e “Deus”. Claro fica para um bom leitor que AEDEUS é a junção de AEDO com DEUS.
Hoje, não se tem mais o poeta como o guardião dos antepassados, mas vejo que o verso ainda é um lugar para a memória, para a música, talvez a mais prazerosa forma do tempo. Em suas ruínas entre o verbo e o verme, o poeta (assim como Deus) ainda escora os suportes de um mundo em decadência. É nesse sentido que, talvez, caiba a palavra AEDEUS.

MITO

Num manto só, a natureza dorme sem as cores que diferenciam obras boas ou más. No fundo, a criação cava sua primeira palavra num tributo à treva ou ao sol. Um velho senta-se junto a fogueira e as crianças ouvem-lhe a voz da memória, que é a poesia. Um barco feito com a matéria dos sonhos viajou por toda a noite e trouxe na proa o pensamento mais antigo e a primeira imaginação. A voz das gerações passadas ecoa pela noite e revive na lembrança do jovem guerreiro.

ACEITE ESTAS ASAS NO TEU CORAÇÃO

Aceite estas asas no teu coração antes que Tróia resista em vão e o poema não se abra da barriga do cavalo e da espada que a noite precisa ocultar no ventre. Aceite as gaivotas e os carrosséis com cavalinhos nascidos da espuma daquele mar que demoraste a olhar. Para as tuas mãos tudo falta levantar o vôo. Aceite minhas credenciais de um reino distante, cujo caminho é a estrada que se alonga na estrada. Queira me dar razão, por favor, pois esta loucura ainda se chamará poesia, basta acreditar na ilusão. É assim que se conquista um grande amor. Ainda há tempo de salvar a humanidade. A tristeza que te olhou do fundo do prato encheu-me de uma fome que nunca senti e na alma soou o tambor do coração. Pelo menos sabes que existe o país dos desesperados. Aceite estas asas no teu coração como parte do meu abandono sagrado.

EU TE ENSINO A SOLIDÃO

Eu te ensino a solidão
para ficares completa
não aqui, no poema – mas onde
a palavra te guarda e
te revela uma palavra tua – aí, onde
não aprendeste a dominar
os ventos e só a escrita perdura
como uma eternidade
na dobra do papel. Sim,
saberei te decifrar como
um espelho ou como uma espada
não outra trégua. Só a tempestade
de erguê-la e dizer-te
assim começa ou assim termina.

PARA O MENINO QUE QUERIA CORTAR O SEU CORAÇÃO EM ALTO-MAR

García Lorca morreu como um menino: o seu crime foi incitar as gaivotas e o trabalho prateado das formigas.
Do seu sangue, o crepúsculo era jovem e a manhã azulava com cheiro de pólvora,
para abençoar as oliveiras
para silenciar o melro
para inclinar a papoula de volta para a meia-noite.
Era de sua nuca que sangrava aquela madrugada de agosto.
O homem é a imagem de Deus.
Deus é a imagem do homem.
Por isso sua memória será a do guardião de borboletas.
Um pranto por García Lorca às cinco horas da manhã.
Pelas cinco horas da manhã de todos os relógios.
Pela última frase escrita com o sangue moreno do seu peito andaluz,
pela lua cigana e pelos olhos de lua dos cavalos de Granada
e pela memória do amante menino que queria cortar seu coração em alto-mar:
Um pranto por García Lorca às cinco horas da manhã,
às cinco horas da manhã de todos os relógios.
Um pranto, ainda que não desperte a maçã,
ainda que o orvalho retarde-se nos vidros das janelas,
ainda que a aurora seja somente para as serpentes.
Um pranto, antes de rodar o girassol
por seu corpo que nunca foi encontrado,
porque era feito da mesma substância dos pássaros
da mesma substância das palavras.
Um pranto por García Lorca às cinco horas da manhã,
às cinco horas da manhã de todos os relógios.

Benilton Cruz – Professor de Literatura da Universidade Federal do Pará. Poeta e escritor. Doutor em teoria e história literária pela Unicamp.

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