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Artigo Edição 002/18

Chico Lopes escreve “De costas para o leitor”

Ver-O-Poema 12/02/2018
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Nessa peregrinação à procura de leitores que todo autor de livros em edições limitadas faz, uma vez mandei o meu primeiro livro de contos (IMS, SP, 2000), “Nó de sombras” para uma leitora importante, uma estudiosa de literatura com alguns livros publicados, residente em São Paulo. Ela gostou do livro, mas fez uma observação que me pareceu bem enigmática: “Está tudo bem, mas, você ainda dá muito a mão para o leitor…No dia em que der as costas para ele, vai ficar mais interessante.”

A frase ficou ecoando em minha cabeça. Mandei-lhe depois meu segundo livro de contos, e a resposta? Nenhuma. A mulher nunca mais me escreveu. Suponho que esperava que, nesse segundo trabalho, eu estivesse mais de acordo com sua pregação, e decerto eu não estava; portanto…

Refleti muito sobre isso. E acho que, sem querer, ela – aliás, uma teórica literária de méritos indiscutíveis, para quem gosta de teoria – se posicionou de maneira sintomática sobre o que é a crítica literária mais refinada e o que é a expectativa do leitor mais esclarecido, mediano ou comum do país. Sem querer, desvendou uma das razões pelas quais os escritores novos tanto reclamam do anonimato, dos poucos leitores: claro que, interessados em agradar a gente como ela, será preciso dar as costas para o leitor, e essa teórica deve representar a voz de consenso das universidades, com sua exigência de refinamento estético impopular. Não admira que se escreva de maneira tão “fechada” em certos círculos, e que esse hermetismo, agradando aos paladares de críticos isolados, seja tão intragável para o grande público.

Pegue-se esses livros de autores novos, em que na orelha alguém dá os créditos do autor referindo-se às influências de Rosa, Joyce, Kafka, aquele elenco manjado, e o que se vai encontrar? A eterna prosa, de leitura penosa, em que o discurso direto e o “fluxo de consciência” joyceano são infalíveis. Ninguém está proibido de ser influenciado por quem quer que seja e não há cartilha estética totalitária que se imponha a ninguém, mas é claro que, dando as costas para o público, mascarando histórias disparatadas ou inexistentes com essa vestimenta pirotécnica de “vanguarda”, o escritor faz o que teóricos literários do gênero da mulher pedem: dá as costas para o leitor. Me parece muito lógico que, em resposta, o leitor dê as costas para ele.

Clareza não é pecado

Desde que me entendo por leitor, li de tudo – de Jorge Amado, livros policiais, de aventura, de ficção científica, a gente bem mais densa e profunda (dois adjetivos bem ao gosto da ortodoxia da crítica) como Dostoiévksi e Proust. Nunca achei que houvesse um modelo de bem escrever unívoco, mas, se tivesse que escolher um, seria, decididamente, aquele que fosse alheio à chatice, à pretensão, à pseudo-profundidade, que é difuso – vai de grandes autores a autores medianos, que podem ser, em horas diferentes, diferentes prazeres. Livros devem dar prazer, acima de tudo, e devem estabelecer um pacto com o leitor, mesmo que o autor tenha uma mensagem complexa a dar, e até por isso mesmo. O desafio é transformar essa coisa estranha, possivelmente uma experiência pessoal de difícil tradução, numa coisa que possa ser compreendida e assimilada. Quem não consegue vencê-lo jamais conquistará um público para si.

É caretice? Não, é esse o desafio da escritura: ser “claro e raro”, como dizia o mestre Fernando Pessoa. Indo para a música, ser talvez como Mozart: um deleite para os eruditos e um prazer para o homem da rua, que pode assoviá-lo. E, para o cinema, ser Hitchcock, hoje amado por tanta gente e estudado como se fosse um esoterismo, mas que não foi senão um diretor de cinema comercial de muito talento que jamais perdeu seu público de vista. Talvez seu público, dos anos 40, 50 e parte dos 60, é que fosse um pouco mais refinado que o de hoje em dia, mas, aí, já é outra história…

Do jeito que as coisas são, parece que escrever claro é um pecado. De imediato se é tachado de anacrônico, e , oh, que horror contar uma história de um modo linear! Na verdade, pode ser que o escritor que esbraveja contra o insucesso seja mais um ressentido, que não soube se fazer claro e legível e decidiu amaldiçoar o mundo que não o achou tão genial quanto ele se sentia nem pôde apreciá-lo como ele desejava. Ao escrever, tinha na cabeça quatro ou cinco amigos muito refinados, de mesa de bar, desses que decidiram mudar o curso da história da literatura ali mesmo. Esse tipo de grupelho, em geral, tanto estimula a publicação quanto impede o talento original de desabrochar, com suas regras, aversões, disputas de egos. Um escritor que queira ouvir a sua própria voz profunda deve evitar esse tipo de amizade, mas, por certo, até descobrir isso terá que penar muito, porque estará lutando com um problema menos literário que de aceitação grupal, social. Por vezes, o que está mais em perspectiva é uma questão de corporativismo entre gente que se sente minoritária, desdenhada, incompreendida.

O que há para fazer? Nada. Ninguém tem a fórmula do gosto do público, mas, certamente, dar as costas para ele é a pior coisa que existe. Dialogar com o público, seja em forma folhetinesca clássica, como Dostoievski e Balzac fizeram, seja tentando pintar a complexidade de nossa época de maneira inteligível, é fundamental. O decantado romance difícil que “Em busca do tempo perdido”, de Proust, costuma ser considerado, quando lido sem pretensões, sem poses, pode ser visto como um grande folhetim também. Nenhum grande autor, dos mais “profundos”, jamais deixou de ter contato com escrituras mais simples, populares, lidas por todos, e de ambicionar uma gama a mais ampla de leitores. Não tentar dialogar com o público é imperdoável, é uma deslealdade. Nossa voz mais íntima, particular, como escritores, têm que ser aquela voz que o público, sem saber, já ouve, intuitivamente. É esse o encontro ideal.

No entanto, o que a teórica mencionada me disse me impressionou, porque é ainda a defesa da “torre de marfim” estética, por vezes não assumida, mas praticada implicitamente nas fileiras de certa crítica. Essas “torres de marfim”possuem o agravante de não dialogarem nem entre si – assim que um dos praticantes se destaca ou faz sucesso, atingindo uma faixa maior de público, será contemplado com desagrados e narizes franzidos por ter cometido um pecado anti-igrejinha: deixou de ser solidário com os ressentidos, os “metidos” que acham sempre que estão muito bem fundamentados em sua antipatia. O sentimento anti-massa não tem que ser, necessariamente, essa coisa ranzinza, árida, satisfeita em sua aridez.

Defendo, contra a idéia pregada por essa teórica, uma idéia mais simples, uma metáfora que tiro de uma experiência compartilhada universalmente: a sexual.

Há escritores que escrevem unicamente para si – são os masturbadores. Há os que escrevem para si, mas sempre mirando o Outro: são os adeptos do coito, querem ter e dar prazer. Que cada um tire daí as deduções que quiser, sobre a superioridade de uma ou outra prática, para o seu fazer literário.

 

Chico Lopes (Francisco Carlos Lopes) nasceu em 6 de maio de 1952 em Novo Horizonte – SP. Publicou três livros de contos – Nó de sombras (IMS/SP 2000), Dobras da noite (IMS/SP 2004), Hóspedes do vento (Nankin Editorial/SP, 2010) e o romance O estranho no corredor (Editora 34/SP/2011). Em 2012, publicou seu primeiro livro de memórias A herança e a procura (Ler Editora/Brasília). O livro O estranho no corredor recebeu um Prêmio Jabuti na categoria romance em 2012. Caderno provinciano, seu primeiro livro de poesia.
Seus contos e resenhas foram publicados em revistas como Cult, Pesquisa e Entre Clássicos e jornais como Correio Braziliense, Minas Gerais, Rascunho, dentre outros. Pulica regularmente crítica de cinema e literatura em sites da internet como Verdes Trigos, Verbo 21, Ver-O-Poema, Conexão Maringá, Cronópios e Germina. Realizou doze traduções de literatura clássica e contemporânea para a Landmark, Ediouro e Rocco. Vive em Poços de Cladas (MG), onde é crítico e programador de filmes do Instituto Moreira Sales — Casa de Cultura, desde 1994.

1 Comentários

  1. Ana Guimarães 13/02/2018

    Que textão maravilhoso, Chico! Me deu prazer lê-lo. Sou adepta da sua linha de pensamento, não por acaso meu blog se chama O Gozo da Letra.
    Abraço

    Responder

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