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Em 2012 Maria Lindgren escrevia para nós o conto “Alucinação”

Ver-O-Poema 17/01/2018
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Senti que sufocava. Não sei exatamente como começou. Consegui, a muito custo, vislumbrar um homem bem moreno, jovem, forte. Músculos bem marcados por exercício físico diário saltavam junto a meu rosto. Esforço? Não, nenhum esforço para me estrangular. O rosto em esgar incontrolado me assustava. Os músculos, não: gosto de homens musculosos.

Por certo, fazia parte de uma família. Talvez a minha própria, não sei. Vários vultos apreciavam a cena, sem se mexer. Nem gritar eu podia. Nem valia a pena: ninguém me socorreria.

Foi logo depois do ataque histérico da mulher de branco. De camisolão grosseiro daqueles que se usava nos asilos estudados por Foucault. Solto do corpo como o dos fantasmas. Não era fantasma. Disso, tenho certeza. Era minha parenta, de algum modo. Fazia tamanho estardalhaço que a veste subia e eu conseguia ver suas pernas muito brancas e finas. Os cabelos ralos desgrenhados em desespero. Com sua própria vida?

Por mais que tente, não consigo adivinhar por que razão ambos, homem e mulher, haviam se tornado loucos completos. Alguns psiquiatras e psicanalistas descobririam na família a gênesis de toda a loucura. Mas, como, se eu saí normal? E meus irmãos?

Lembro-me bem da cena: a mulher corria para baixo e para cima da sala não muito grande. Os demais caminhos eram penosos demais para seus pés pequenos. Os gritos, ou mesmo, as lamúrias percorriam o espaço até o local predileto de minha reflexão: a mesinha do computador.

Certamente a mulher me era familiar, pois tentei socorrê-la. Primeiro, com carinhos de mãos que a não alcançavam; depois, com palavras apaziguadoras, de efeito nulo. Desespero não se acalma com palavras – lição que aprendi para qualquer outra ocasião, quem sabe? Estado de exaltação pode melhorar com silêncio respeitoso ou com tranquilizantes, no caso da boca que berra permanecer aberta e dar uma chance da gente se aproximar.

Havia duas outras mulheres. Sabiam que o melhor era deixar a cena rolar – filme de horror que pode acabar bem inesperadamente. Eu, não. Queria sair do estarrecimento diante do destino trágico da mulher.

O homem apareceu depois. Com fúria ainda maior, não gritou, não disse nada: avançou até a mesinha, direto para meu pescoço de ave prestes a cair morta. Vestia-se de preto, agora tenho certeza. Em roupa de judô. Vi o quimono de tecido grosso, com faixa e tudo. Quem sabe não havia chegado de uma competição? Não conseguindo sucesso, nem esperou crítica: fez o gesto tresloucado, por pura raiva.

Ainda engasgada, percebi as mãos afrouxarem-se, sem aviso. Não movi um músculo se quer. Não corri, não me afastei. Esperei o grandalhão se ir babando, suando…

Muito mais tarde, liguei os personagens aos pesadelos comuns a minhas muitas noites de insônia.

O episódio pode parecer absurdo: dois doentes mentais numa mesma família. Me disseram que há casos de três ou quatro alucinados num mesmo lar. Se a doença é genética, não há como escapar: um dia, ela aparece. Se é maldição do destino, pode cair num primo, num tio, num cunhado, mas cai. Se é defeito de criação familiar, aí, sim, é outra história: pode ir em cima dos filhos todos.

Então, devia ser isso: culpa dos pais, deformados pela realidade social adversa.

Mas meu flagelo não parou aí. Depois do episódio do quase estrangulamento, dos parentes doentes mentais, quatro assaltantes, bem nas redondezas de minha casa. Haviam me avisado e nem liguei: fui para a rua. Tinha que arejar um pouco. Resultado: assalto à mão armada na minha casa. Na porta da rua, dei sorte: fiquei apenas sem cordão de ouro, sem carteira, sem documentos… No pescoço, além das marcas das mãos tresloucadas, um filete de sangue, por conta do fino cordão, tirado às pressas.

Estancou logo, logo. Dei graças a Deus, enquanto os bandidos entravam. Não fiz nem menção de voltar. Antes assalto do que loucura familiar: perde-se os bens, e daí? Mais bens se adquirem, e pronto. Cabeça sadia, essa, sim, não se substitui com facilidade. Dá um trabalhão para todos: família e doutores, não é mesmo?

– É, minha filha. Fique quieta: a injeção não dói nada.

Maria Lindgren

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