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Em novembro de 2007, o poeta Celso de Alencar nos enviava esses imperdíveis “Poemas perversos”

Ver-O-Poema 17/01/2018
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NÃO ESQUEÇAMOS AS VELHAS AMIGAS DE 1925

As mulheres nuas.
Aquelas colocadas sobre as portas
que se levantavam dentro das casas.
As que exalavam aromas leves
de lírios recém-nascidos.
Seus seios prolongados.
Suas pernas extensas e derramadas
no próprio coração e na orelha que se estendia.
As bocas sinuosas tombadas
sobre as batatas cozidas.
As mandíbulas separadas pelos dentes
que se cortavam e se distraíam.
Suas mãos que se escondiam entre as pernas
dentro da genitália sombreada e vazia.
Não esqueçamos as velhas amigas de 1925.

A cor dos seus olhos iluminados.
As nádegas arredondadas sobre as coxas.
Seus dedos indicando o caminho
da cidade onde se encontrava o rio.
Suas palavras mais antigas
cantadas pelos olhos solidários
e pela haste que se ocultava
na garganta incendiada e multiplicada
por trinta e uma e mais cinco.
O doce que se extraia de seus lábios estremecidos
e acordados nas manhãs reconstituídas.
A pele que brotava da própria pele
como se fosse de aves rejuvenescidas.
Não esqueçamos as velhas amigas de 1925.

Não esqueçamos
seus vestidos estampados.
Suas maquiagens avermelhadas.
Suas testas de onde saíam
facas sujas de leite e pão.
Seus cachorros de raça alemã.
Suas bacias onde lavavam roupas íntimas.
Seus braços finos esticados sobre a cabeça.
Seus talheres de prata importada.
Suas línguas de mistério, delicadeza e furor.
Suas loucuras quando tratavam da morte
e daquilo que as fecundavam.
Não esqueçamos a chuva, a água do mar, a noite,
as fotografias com dedicatória.
Os cabelos escondendo as costas.
O delírio debaixo das mesas silvestres.
O amor prenunciado e indestrutível.
Não esqueçamos as velhas amigas de 1925.

OS GATOS ESTÃO MORRENDO

Eram dez na vidraça.
Apenas três restam agora.
Há um comedido silêncio dentro de mim
e eu ouço miados leves
como o som delicado
de pétalas se deitando no chão.

Os espíritos dos gatos
vivem indivisos em mim
com suas palavras e suas patas
incrustadas de ouro
e ondas de pêlos esvoaçantes
e cânticos profusos de corais felinos.

Eu me alimento de mel, aveia e água
para que duradouro seja o meu tempo
e eu reparto as minhas breves refeições
com os meus bichos
colocando-lhes sobre as suas línguas
a água, a aveia e o mel.

Nas noites de inverno
nas noites em que canto
a minha própria boca
eu ouço som de dores
nas minhas vísceras
e vejo que na vidraça
três gatos apenas restam agora.

TOMEMOS CHÁ, MINHA IRMÃ

Tomemos chá minha irmã
hoje, pela manhã,
porque à tarde
nosso pai virá do céu.
Suas botas encontram-se engraxadas
e suas roupas
dispostas sobre a cama.
A frente da casa foi varrida
e nenhum outro pedregulho mais se vê.
Os cravos despontam no jardim
com esplendorosas cores
rosas e brancas
e breves filetes de açúcar e vinho.
Os móveis brilham
como brilha o sol sobre o mar
e suas gavetas murmuram
cantigas trêmulas
nos seus movimentos breves
de abrir e fechar.
Aguardemos a tarde minha irmã.
Colhamos jasmim para os vasos da sala
e para os nossos pescoços e braços.
O dia tece a sua própria luz.
Não demora, logo chega a tarde.

TRÊS UVAS

Se me fosse permitido
comer três uvas
apenas três uvas
a minha língua tremeria
dentro de mim.
Eu me conduziria até a ponte
para afundar meus olhos originais no rio
e assassinar o leito violento
que matou meu irmãozinho.

Se me fosse permitido
comer três uvas
a loucura não seria relembrada
e nem seria amarela
e eu poderia dizer que as minhas unhas
encontram-se agarradas aos meus pés
como a noite que canta
dentro do meu pênis raro e perfeito.

Escoa na minha boca
a água do oceano extraordinário
e as pequenas cabras
com suas bocetas esfaceladas.
Ah! Se me fosse permitido
comer apenas três uvas.
Nenhuma vaca pariria
dentro do meu estômago
e a minha truculência
se ausentaria do meu coração inocente
e os meus seios maternais
se esconderiam entre tudo aquilo
que floresce para sempre.
Nenhuma mulher de branco me olharia
com olhos de ouro
e nenhuma sentaria sobre
a minha mão queimada.

Se me fosse permitido
comer três uvas
eu falaria sobre todas as coisas
que se encontram na mata nativa
e das madeiras para fabricação
___________________________________
Celso de Alencar – Um poeta paraense ausente da terra há quase 36 anos. “Saí de Belém em 1972, com 22 anos, mas em momento algum deixei se extraviar a cultura paraense. Naturalmente a linguagem poética foi tomando novos rumos, todavia sem eliminar os pés do chão. Vivi parte da infância em Abaetetuba, onde fiz o primário e a partir dos 12 anos, em Belém. Nasci em Fortaleza/Ce, entretanto quando tinha 5 anos meus pais mudaram para o Pará e hoje sou considerado um poeta paraense.” (18.11.2007)

1 Comentários

  1. Douglas Oliveira 01/02/2018

    Excelente. Mais um poeta paraense para minha lista de leitura. Obrigado à Revista Ver-O-Poema por compartilhar tão belos poemas.

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