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Crônica Edição 002/18

“O apagão” por Ana Guimarães

Ver-O-Poema 12/02/2018
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Destituída de qualquer resquício de autonomia, impotente diante das escarpadas circunstâncias impostas, a liberdade vestida com a camisa-de-força da responsabilidade, mera expectadora sem grafia de sujeito. A intimação da morte simbólica, vinda da própria vida, seguida à risca. Obediência à tirania do real, não sem certos instantes dramáticos de esperneio, cada vez mais raros e privados. Reduzida a ser útil, a me voltar exclusivamente para o mundo visível, concreto, sempre a reclamar minha atenção. Aceitava tal sorte lançada.

Não por acaso, em sincronicidade, uma noite faltou luz. Sem velas em casa, procurando a lanterna em gavetas pouco usadas, tateio um saco com pedras dentro. Nunca mais jogadas, há décadas, a sede de decifrar a esfinge do futuro esquecida desde a juventude. Deixo a razão de fora e, com prazer, chacoalho entre os dedos da mão as Runas, na esperança de que a escolhida consiga, senão afastar os fantasmas, ao menos fazer um recorte do momento, dar-lhe sentido. Risco um fósforo e a vejo, sem nenhuma inscrição, ameaça à nitidez desejada. A vigésima quinta runa, a última, a branca significa “no colo dos deuses” ou “o que será, será”. Avisa que não há como controlar o que está em movimento, o desconhecido. Fala de um salto no escuro. Prenuncia eventos inevitáveis dos quais não conseguiremos escapar, embora associados a coragem para enfrentar obstáculos e fé na capacidade de ultrapassá-los. A também chamada Runa Vazia, com seu potencial indeterminado, sugere que podem ser trazidos à superfície tanto nossos medos como os sonhos mais profundos.

Aos tropeços, debaixo de completa escuridão, prossigo a busca. Agora surge um baú com as cartas do Tarot, que logo embaralho e recolho O Pendurado. Ela remete ao mito de Prometeu, o Titã que desafiou a lei de Zeus roubando o fogo sagrado para entregá-lo ao homem, e assim foi punido. Evoca sacrifício pessoal, abnegação, submissão ao dever. E o crepúsculo do sol na cena exprime o decrescente brilho da luminosidade, do racional, da consciência. Estarei de cabeça para baixo frente ao mundo? Não é uma postura confortável, perde-se o pé, o equilíbrio, fica-se tonto. Um adeus ao velho e direto olhar, no entanto também uma rara oportunidade de enxergar as coisas sob outra perspectiva, observar as situações por um ângulo diferente, acolher novos pensamentos com o cérebro bem irrigado pela posição invertida. É preciso não lutar contra essa condição. Confiar. Em suspensão, literalmente.

Por fim, com as três moedas do I Ching encontradas, rendo-me ao clássico da sabedoria oriental, o oráculo dos números, o Livro das Mutações. O resultado, o hexagrama 5, A Espera, aponta para nuvens trazendo a chuva, para alegria de tudo o que cresce, porém ela só virá em tempo oportuno, não é possível apressá-la. O mesmo ocorre quando o destino articula seus passos. Espera não quer dizer renúncia, adiar não é abrir mão. Ansiedade e impaciência não devem dissipar nossa energia. De nada adianta ceder a preocupações, ao contrário, manter a segurança interior, permanecer sereno, em “estado de abandono”, o que caracteriza a atitude de alguém que abdica da vontade, temporariamente, e se entrega à vontade dos céus.

Irretocável retrato do meu teatro das sombras. A luz ainda não voltou, mas já percebo algum brilho nas brumas.

Ana Guimarães

9 Comentários

  1. Claudia Vaz 13/02/2018

    Bonito texto, gostei muito. Vou usar meus oráculos e pedir a você a interpretação 🙂

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  2. Ana Guimarães 13/02/2018

    Tente, mas não prometo nada, não é o meu departamento, como vc sabe, precisei pesquisar a respeito! 😄 Bj e obrigada!

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  3. Tania Montandon 13/02/2018

    Bacana o texto, isso é que é exemplo de escancarar a cabeça. Apóio! Afinal, os orientais dizem que meditar alguns minutos de cabeça para baixo faz muito bem à circulação sanguínea no cérebro, à consciência corporal e equilíbrio 🙂
    Sou a favor dos mais de 80.000.000 de tons de cada ponto de vista!
    beijo

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  4. Ana Guimarães 13/02/2018

    Sumida! Voltou com tudo, hein? Quanta honra! Obrigada, Tania. Bjs

    Responder
  5. ROSE MARINHO PRADO 15/02/2018

    … estou lendo mas com dificuldade de concentração, é a ansiedade… Volto amanhã.
    Seu estilo é maravilhoso não acha?

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  6. Ana Guimarães 15/02/2018

    Salve, Rose! Fique à vontade, leia no ritmo que puder. Obrigada pelo carinho de sempre.
    Ana

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  7. ROSE MARINHO PRADO 18/02/2018

    Já li outra vez. O texto não é fácil, sinto dificuldade de entender. Virei outra vez.

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  8. ROSE MARINHO PRADO 18/02/2018

    ” a liberdade vestida com a camisa-de-força da responsabilidade, mera expectadora sem grafia de sujeito.”

    Por que é que a liberdade com a responsabilidade deixa de ser sujeito? Só há sujeito no ID?

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  9. Ana Guimarães 19/02/2018

    Oi Rose!
    Obrigada pela leitura e comentários.
    Tentando esclarecer sua dúvida: “… mera expectadora sem grafia de sujeito” se refere a personagem.
    Bj

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