Pesquisar

Conto

“O outro eu” – um conto de Raymundo Silveira, com saudades

Ver-O-Poema 12/02/2018
Compartilhar

O médico e escritor Ray Silveira. Nascido em Massapê, Ceará, autor premiado nacionalmente e membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames), destacou-se na crônica e no conto, publicando pelo menos quatro livros, além de diversos artigos e ensaios em jornais, revistas e sites.
Em 2010, ganhou o Prêmio Literário para Autores Cearenses (Secult), com o livro de crônicas “Louca uma Ova”. No ano seguinte, conquistou o Prêmio Concurso Nacional de Poesia – Correio das Artes 60 Anos, promovido pelo Governo da Paraíba, com o livro de contos “Lagartas-de-Vidro”. Em 2015, lançou “Amadadama”, também de contos. Foi bolsista da Funarte/Ministério da Cultura (Bolsa de Criação Literária, 2010), tendo produzido a obra “Medicina Crônica”. Em 2013, recebeu o Prêmio Talentos da Maturidade, promoção bienal do Banco Santander, pelo conto “Gozo Precoce”.
Durante onze anos, Ray Silveira foi membro do Conselho Editorial da Revista Feminina, onde publicou artigos científicos. Tem ainda trabalhos publicados em outras revistas e livros médicos. Sua atividade literária cresceu com o advento da internet. O site italiano DOMIST, por exemplo, traduziu e publicou alguns dos seus textos em inglês, francês, espanhol, alemão e italiano.

Ray Silveira empreendeu também diversas viagens à Europa e Ásia, onde colheu subsídios para diversas crônicas em que descreve suas impressões do Velho Mundo. As crônicas foram publicadas em sua página na internet e em jornais e revistas especializados.

Amigo e colaborador de Ver-O-Poema, desde o ano de 2006, Raymundo Silveira faleceu no dia 03 de novembro de 2016, em Fortaleza, aos 72 anos. 

***

 

Quando o alarme disparou, estava urinando. O jato cessou como o de uma mangueira bruscamente retorcida. Deixei o toalete sem ao menos lavar as mãos. Todas as portas da loja de departamentos Harrod’s foram bloqueadas. Não entrava nem saía ninguém. A primeira ideia: terrorismo do IRA. Não era. Depois de muito caminhar e indagar, soube que sumira, do setor de joalheria, um Fancy color diamond de mais ou menos cinco quilates. Para se ter uma ideia, um diamante destes de apenas 0,95 quilates vale cerca de novecentos e cinquenta mil dólares.

Como sempre, me encontrava só. Detesto companhia enquanto viajo. As desutilidades são inúmeras e as vantagens quase nulas. Ao saber do que se tratava, voltei para terminar de esvaziar a bexiga. Instintivamente, meti a mão num dos bolsos da jaqueta. Terrível sobressalto: o diamante estava lá. Era do tamanho de uma semente de jaca. Alguém o pôs ali. Estava sendo usado como mula involuntária. Só podia ser isso. A polícia logo descobriria. Ou o verdadeiro ladrão viria me procurar. De um modo ou de outro estava ferrado. Como a revista policial seria imediata, optei por ocultá-lo. Ninguém ia acreditar ter sido vítima, e não agente. Os policiais não são ingênuos. Catei alternativas. Só encontrei duas: engolir ou introduzir no ânus. Logo concluí que a polícia possui recursos para detectar qualquer material estranho oculto no corpo humano.

Súbito, uma entrevisão tardia. Vi-me furtando a joia. Não era a primeira vez a experimentar a insólita sensação de ser duas pessoas. Costumava acontecer enquanto estava sozinho. Sucedia geralmente em ambientes solitários, como banheiros. Não há como descrever. A impressão de estar a sós com alguém, que não é outro senão você mesmo, apavora. Tinha de sair o mais depressa possível do isolamento, e encontrar alguém. Do contrário, enlouqueceria. Só que nunca tinha acontecido como agora. No meio da multidão. Outra diferença já vinha ocorrendo há algum tempo. E se desenvolveu aos poucos, graças a alguns esforços por mim empreendidos, movido pelo medo dos horripilantes encontros.

Consistia em jamais permanecer sozinho. Até para ir ao banheiro me fazia acompanhar de qualquer coisa viva. Geralmente, o meu gato. A maldita alucinação, ou fosse lá o que fosse, parecia abominar. E revidava aparecendo em outros lugares por mim eventualmente frequentados, embora sem a minha presença simultânea. Eu só tinha conhecimento porque, às vezes, me lembrava de haver estado em determinado local, sem ter estado, de fato. Sei que é muito difícil de entender. Eu próprio nunca consegui. Mais complicado ainda é ter como explicar. Antes, eu me via desdobrado em dois e percebia tudo enquanto acontecia. Depois, continuava o estranhíssimo fenômeno. Só que eu não me via, mas tinha certeza absoluta de ter estado ali, sem ter estado. O “eu passado” só era entrevisto mais tarde pelo “eu presente”. Antes, eu era dois no mesmo tempo e espaço. Agora, seguia sendo também dois, em tempos e espaços diversos. Só assim consegui atenuar o pavor de me encontrar comigo.

Então, me conscientizei da fantasia da “mula involuntária”. O “eu” presente teve, enfim, consciência do delito do “eu” passado. Foi “ele” quem furtou a pedra. Este eu de agora não sabia o que o outro fazia. Eu não era eu. Aliás, eu não queria ser eu. Mas era. Até então, minha noção de vício e virtude – ou pelo menos dos seus desdobramentos – era completamente diferente do que é para a religião e para a sociedade como um todo. Claro que reconhecia o bem e o mal. Achava, porém, uma iniquidade o primeiro merecer prêmio e o segundo, castigo. Bondade e maldade são determinações fatais em todo ser humano. Sendo fatalidades, independem da vontade do sujeito. Para mim, toda concepção de livre arbítrio não passava de justificativa de natureza sofista criada por uma moral hipócrita para fins espúrios.

Meu analista já havia me prevenido quanto a alguma tendência para a cleptomania: um sintoma obsessivo-compulsivo típico de fixação anal. Não me preocupasse muito com o “espirro”, mas tratasse de curar o “resfriado”. Apenas tivesse muito cuidado ao viajar para países desenvolvidos, onde a legislação não reconhecia cleptomania como sinal de doença, pelo menos para efeitos legais. Nem sheik árabe estaria imune. Jamais fui flagrado. Ou pelo menos, não me aborreciam. Morava numa cidade de porte médio onde todos se conheciam. Quem sabe, faziam vista grossa, e descontavam o prejuízo nos preços das mercadorias compradas com cartão. Nunca fui de conferir faturas.

Vieram batalhões de policemen e investigadores da Scotland Yard. Fomos distribuídos em grupos de vinte. Seríamos interrogados e revistados. Surgiu um conflito, seguido de um impasse terrível, como nunca tinha experimentado. Ninguém ia se convencer de que este “eu” era inocente agora, tendo sido culpado antes. O cérebro funcionando a mil, não dava conta de encontrar uma saída. Ainda que existisse. O sangue circulava pelas minhas veias como filetes de chumbo líquido escorrendo pelas calhas de uma fundidora e se ramificava até os espaços mais recônditos do meu corpo, mobilizado pela bomba hidráulica de um coração galopante. Tal não impedia gotas de suor gelado porejando-me da face como de uma esponja. Faltava-me fôlego. Tinha os olhos esbugalhados de desespero e as pupilas arreganhadas de vontade de Brasil. A alma ávida de vida e arrebentada de arrependimento. Um homem em pânico de tudo é capaz. Meti a mão no bolso, apanhei a pedra e ia retirando para entregar a quem quer que fosse, embora conhecendo as implicações…

De repente, me vi à porta dos sanitários, acenando. Mesmo apavorado tive de ir ao meu encontro. Não havia alternativa. Entramos. E então nos falamos pela primeira vez. Ou melhor, o meu outro eu falou comigo: “Me dá a pedra. Lá fora nos encontraremos”. Aterrorizado, mas com um certo alívio, entreguei, como se me desfizesse de um ferro em brasa. Sumi(u) subitamente. Quando sofri, pela primeira vez, um fenômeno semelhante, tinha entre nove e dez anos. Encontrava-me na casa de campo de um amigo do meu pai. Ele havia saído. Estávamos minha mãe, eu, os donos da casa e alguns outros convidados. Na noite anterior tinha ido a um circo e assisti a muitas exibições de trapezistas, e malabaristas. Decidi imitá-los saltando sobre as redes de dormir estendidas nos alpendres. Durante um dos saltos pisei o fundo de uma delas, caí pra trás e bati a nuca no piso de cimento. Permaneci alguns minutos sem me mexer e sem respirar. Pelo menos, assim me contaram. Só lembro de ter visto, o meu corpo estatelado no chão. Mas não conseguia me comunicar com as pessoas debruçadas sobre ele.

Durante a juventude, fenômenos similares foram amiudando, até que alcancei o pequeno êxito já aludido. Ou seja, não me encontrava mais comigo mesmo em locais solitários. Naquela ocasião, se me mantivesse calmo, nada aconteceria. Ninguém poderia imaginar que o meu “eu” passado roubara o diamante e o conduzia lá fora. Em plena Knightsbridge. Quase nas barbas anciãs da Scotland Yard. O “eu” presente, embora consciente disso, não se sentia culpado, nem inseguro. Cinco milhões de dólares. Não precisaria mais trabalhar para viver confortavelmente até o fim. Em pouco tempo estaria livre e… milionário.

Na vintena onde fui segregado, era o suspeito número um, face à minha condição de sul-americano. Buscaram não só o diamante, como também dois outros produtos. Ambos não muito raros, nesta metade de baixo do planeta: pó e contradições. Me puseram pelo avesso. Fui radiografado, ultra-sonografado, e dededizado. Enfrentei tudo com uma serenidade monástica. Não pairava mais suspeita sobre mim. Depois de passar pelo interrogatório e pela revista, tive uma sensação de liberdade tão intensa como se fosse voar. Os detetives me pediram desculpas e que entendesse tratar-se de uma rotina. Chegamos a ter um papo animado, o que muito me surpreendeu, conhecendo, como conheço, a fleuma britânica. Atribuí este comportamento ao constrangimento sentido por me terem submetido àquela humilhação. Correrem o risco de serem malvistos no exterior.

Despedimo-nos. Naquele instante voltei a me ver. Estava do outro lado da rua, caminhando nervosamente de um lado para outro. Encaramo-nos. O outro “eu” tinha o semblante da ansiedade. Acenava desesperadamente para que saísse logo. Então, aconteceu um fato extraordinário. Um surto de lucidez. Uma epifania. Uma revelação extra-sensorial. Minha noção de justiça girou 180 graus. Senti uma mistura de pavor e ódio daquele “eu” exterior me esperando no lado de lá da rua. Desejei matá-lo. Ou suicidá-lo, se preferirem. Aquela imagem era a eterna maldição. O demônio assumindo a minha forma. Percebi que jamais teria sossego. Aquela gema de cinco milhões seria a minha independência material, mas também a minha ruína moral. Caí das nuvens com quarenta janeiros de atraso. Resolvi devolver a joia.

Entre a decisão de confessar e um suposto (porém impossível) flagrante, não ia fazer diferença alguma. Seria preso, de um modo ou de outro. Cumpriria longa pena, mesmo apelando para o recurso da delação premiada. Neste caso, da autodelação. Depois, expulso do país. Conviveria eternamente com a marca da difamação. Enquanto fosse vivo não teria nome. Me tornaria um jamais esquecidiço signo da ignomínia. Seria sempre o assaltante da Harrod’s. Meus filhos e netos também iam ser humilhados enquanto eu existisse. E até depois da minha morte. Preferi isto a ter de conviver com a culpa… Não era só… Pensando melhor, este escrúpulo recém-adquirido, cedo ou tarde o tempo atenuaria. Em verdade, não passava de mera racionalização. Para ser sincero, a decisão de me declarar culpado só foi tomada em face da ira que sentia do meu outro “eu”. E do terror de ter de voltar a me encontrar com “ele”…

1 Comentários

  1. Ana Guimarães 13/02/2018

    Escrevia muito bem, não sabia que havia falecido.

    Responder

Deixe um comentário

Seu email não será publicado.

                 

Comment moderation is enabled. Your comment may take some time to appear.